Feminismo

Uma pergunta prudente é metade da sabedoria – Feminismo nos livros!

Parece até que é uma conspiração do universo, um dia antes de eu postar um vídeo explicando o abandono de um livro por causa da romantização de abuso e assédio sexual presente nele a Maria Angelica do canal e blog Vamos Ler fez escreveu um artigo incrível sobre feminismo em livros YA, NA e Romances Adultos, ou melhor, sobre a falta do feminismo nesses livros. O artigo está super bem construído e explicado e eu super recomendo a leitura, especialmente para rever aquele livro ou outro que você amou, mas que é cheio de perpetuação de conceitos machistas.

Mas Sibelle, pra que você está fazendo o seu próprio artigo?

Bem, primeiro porque esse é um assunto que PRECISA ser muito mais discutido! Atualmente temos visto um movimento muito grande de debate sobre o empoderamento feminino em quadrinhos através das polêmicas que estão surgindo (como quando reclamaram do novo uniforme da Mulher Maravilha) e até mesmo no segmento gamer onde as mulheres são extremamente menosprezadas e sexualizadas esse assunto tem estado mais em pauta do que nos livros.

Existem no mercado milhares de livros que romantizam violência doméstica, que disfarçam obsessão de proteção, que colocam as mulheres em uma posição de servidão e submissão aos homens e pouco se fala sobre isso. Mas porquê? Essa é a perguntinha mágica. Porque não falamos tanto sobre isso? Porque não nos posicionamos contra esse estereótipo patriarcal que nos faz achar lindo um “amor” onde a mulher é um planeta cuja única função é girar em torno do Sol que é o homem literário?

Escolhi a frase de Francis Bacon para abrir esse artigo justamente porque esse artigo não é para julgar nenhuma leitora ou leitor e, sim, para incentivar o questionamento e a formação da sua opinião. E também pra incentivar você que já tem uma opinião formada sobre o assunto a divulga-la e compartilha-la. Quero ver mais artigos como o da Geli, quero ver mais vídeos como os da Vitória Porto e os do João Pedro.

Todos nós adoramos ver a Katniss lutando contra a Capital, a Tris sendo uma divergente bad-ass, a Caelena sendo a maior assassina de Adarlan. Todas nós vibramos quando somos representadas na literatura, mas porque não reclamamos quando somos mal representadas?

I’m not standing by that, because that’s not what I stand for. – Lady Gaga

As vezes é muito difícil percebermos quando um personagem (ou as vezes todos os personagens) ou o autor(a) está perpetuando e reforçando o machismo e a misoginia durante o enredo porque todos esses conceitos estão enraizados em nós. Nós crescemos e vivemos em um mundo opressor e acabamos nos alienando à própria opressão. E as vezes damos tanta atenção a movimentos maiores de opressão que deixamos aqueles detalhes, os pequenos, que tiram nossa liberdade, auto confiança e poder pouco a pouco, passarem despercebidos. Eu me sinto no dever, como feminista e principalmente como mulher, de rever o que me é vendido seja isso um livro, um filme, um seriado, uma HQ, um jogo. Se você procura pelo melhor preço antes de comprar algo, porque não pode procurar pela melhor modelo literária antes de comprar os ideias e comportamentos também? Personagens são modelos da vida real e também são modelos para a vida real. Quantos de nós não aprendemos sobre amizade com Hermione, Ron e Harry? Quantos de nós não aprendemos a proteger nossa família com todas as nossas garras como a Katniss? Quantas ainda não vão aprender que a vida se resume a achar um cara “forte, lindo, rico e sexualmente infalível” como a Geli diz os define no artigo e que ainda por cima decide o que você come, o que você veste, pra onde você vai, com quem você fala e etc.

Eu sei que é muito bom apenas ler um livro sem compromisso nenhum e aproveitar os personagens, o enredo e o romance independente se o “herói” é machista ou se a “donzela” é retratada como uma virgem sem vida alguma, cuja única função é redimir o herói de seu passado sombrio, mas será que vale apena continuar perpetuando essas representações que só nos prejudicam? Bem, pelo menos eu imagino que deva ser bom, porque eu não me lembro mais desse sentimento. Eu tenho uma vida na qual meus problemas são muito mais superiores do que “será que ele um dia vai me amar?”, então sim, eu me incomodo e muito quando as personagens femininas são retratadas sem problema algum além do par romântico. E acreditem, não são poucas. Que pessoa nesse mundo não tem problemas acadêmicos, familiares, de amizade ou de trabalho?

Por último eu gostaria de fazer um pequeno adendo na lista de problemas compilados no artigo da Geli.

Branca, “corpo perfeito” E de cabelo liso.

Já percebeu que uma grande maioria das protagonistas femininas tem a pele branca, o “corpo perfeito” (geralmente magro ou com curvas hiper sexualizadas) e o cabelo liso? Pois é. Um grande problema da falta do feminismo nos livros de YA, NA e Romance adulto é a pouca representatividade e a formação de um “tipo ideal” de mulher criado neles. A mocinha é sempre alvo dos desejos e olhares de todos os “melhores” homem da história com seu corpo escultural, “pele alva” e cabelo liso e lindo e cai pelos seus ombros (e pra piorar ela acha que é a menina mais horrorosa de todas, nos passando a ideia de que é errado reconhecer a sua própria beleza e que se fizer isso você não é desejável).

Quantas protagonistas negras você conhece? Quantas protagonistas gordas? Quantas protagonistas que simplesmente não se encaixam no padrão de beleza criado socialmente? Mulheres, porque são tão pouco diversificadas em livros?

Eu, infelizmente, posso contar nos dedos as personagens negras sobre as quais eu já li e nenhuma delas era a protagonista. Eu, infelizmente, não chego a poder contar os livros que já li com personagens gordas e se já li, foi apenas uma. Ser representada é importante. Saber que você, mulher, sendo do jeito que você é seja qual for a sua etnia ou tipo físico pode derrotar vilões, salvar o mundo, ter uma carreira de sucesso e até mesmo se sentir desejável é importante. Como disse antes, personagens são modelos em nossas vidas e as minorias precisam ainda mais de modelos fortes e poderosas. Personagens que são donas de si mesmas e de suas vidas. Personagens com relacionamentos saudáveis, com problemas e preocupações variadas, com amigas para dividir suas dúvidas e medos, com a determinação e poder para resolver os seus dilemas, é sobre esse tipo de mulher que eu quero ler e, quem sabe um dia, escrever.

8 Comments

  1. Bianca Muriel

    29 de novembro de 2015 at 21:55

    Olha, eu concordo desde a primeira virgula até o ponto final e ainda gostaria de ressaltar um outro ponto. A trilogia mara dyer foi um dos ultimos YA que eu li e eu gostei bastante. Primeiro pq os livros constroem e desconstroem todos esses pontos ai. Eu sinto falta não só de mulheres bad ass, mas também de mulheres problemáticas, adolescente que sonham com uma profissão legal e não com um cara. Acho que mais que empoderar, queria sonhos e expectativas que fossem mais pessoais e menos uma pessoa. Não que o romance exagerada, se perder de amor seja errado mas sinto falta dessas coisas viram com consequências e aprendizagens. Quero ver mulheres ruins, com poder nas mãos para destruir o mundo e outras capazes de reconstruí-lo. (Acho que ficou meio poético mas, enfim :))

    1. Sibelle Lobo

      29 de novembro de 2015 at 23:13

      Poético, mas adorei! Eu super concordo contigo e super quero ler sobre mulheres que querem mais da vida que um homem sabe. Não há nada de errado em querer achar o amor, mas isso não te impede de ter uma vida hahahaha
      Eu ainda não li Mara Dyer, mas não sabia que tinha toda essa desconstrução! Super me interessei agora!
      Muito obrigada pelo comentário! <3

  2. Victória

    30 de novembro de 2015 at 03:12

    O YA da Rainbow Rowell, o Eleanor e Park, trás uma das poucas protagonistas gordas e não convencionalmente bonitas que já vi. Foi o primeiro livro com esse tipo de protagonista que já li e faz a gente perceber como é importante se sentir representada. Mesmo que o foco da história seja o romance, a Eleanor ( e mesmo o Park) tem seus problemas individuais e isso é sensacional. É tornar o personagem mais humano, sabe? Enfim, amei o texto e o canal! Me inscrevi esses dias e to adorando 😀

    1. Sibelle Lobo

      30 de novembro de 2015 at 10:51

      Já ouvi falarem muito bem de Eleanor e Park e acho essa representatividade linda ♥ Faz uma diferença enorme na nossa leitura, porque a gente se identifica com a personagem ou ao menos entende as inseguranças dela. Pretendo ler Rainbow Rowell em breve! E muito obrigada por se inscrever no canal ♥ espero que goste!

  3. Anna Gabriella

    30 de novembro de 2015 at 05:02

    Oie!
    Fiquei aqui parada por alguns momentos pensando nas protagonistas que não seguem o “padrão” e são bad ass e não lembrei de muitas. Seu artigo, assim com o Geli, me abriu os olhos e agora vou prestar mais atenção e recomendar aos autores que conheço diversificar.

    1. Sibelle Lobo

      30 de novembro de 2015 at 10:53

      Eu geralmente discuto muito isso em chats com meus amigos, mas o artigo da Geli me inspirou demais pra escrever publicamente minha opinião sabe!
      E também quero muito recomendar mais autores que diversificam nos personagens e que empoderam mulheres, eu só preciso garimpar e achá-los hahaha
      Muito obrigada pelo comentário!

  4. Mariana Clara De Lima da Silva

    3 de julho de 2016 at 02:43

    Nao consigo terminar a leitura da saga Não Pare! da escritora nacional FML Pepper por causa da romantização do machismo, da violência contra a mulher. A protagonista chega a admitir como gosta de ser tratada mal, de como o seu par romântico é rude com ela. É terrível, me da um pavor de continuar a leitura e ver como o cara age como superior à ela.
    Realmente, Mara Dyer é muito bom, um livro bem diferente dos yas por ai, apesar de alguns clichês que a gente perdoa rsrs
    Para todos os Garotos que já amei, é um livro muito sensível que aborda a protagonista de forma muito real, inclusive ela é de descendência coreana, o que ja foge ao estereótipo da “branca, loira dos olhos verdes”. E aborda o Feminismo também. Muito legal a leitura! 🙂

    1. Sibelle Lobo

      6 de julho de 2016 at 20:04

      Nossa, eu desisti de ler Não Pare pelos mesmos motivos! Eu simplesmente não aguentei, eu já tava passando mal lendo o livro.
      E eu com certeza queto ler os livros que você comentou! ESPECIALMENTE Mara Dyer! Beijos!!

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